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O cerrado é um ecossistema de fogo

Angel Lima cria um equilíbrio entre o quente e o frio das cores vivas em seu ecossistema de imagens e formas. Assim como o Cerrado renasce com o fogo, com as queimadas, com as brasas, em um movimento contínuo de equilíbrio/desequilíbrio/reequilíbrio, as imagens criadas por Angel recriam essa harmonia violenta e potente do Cerrado: tons fortes disputam espaço; quente e frio se entrelaçam; temperaturas se alternam e se alteram.

Cores saturadas, complementares, opostas se movimentam ao olhar do espectador, como nos dias em que a ilusão de ótica cria formas inexistentes no asfalto, poças d’água feitas de sol e vapor. A transição dos tons relembra os dias quentes de Palmas e do Tocantins: períodos em que há uma saturação de quentura, de poeira, de secura, de cansaço, de queimadas, fumaça nas manhãs como se fossem neblina; as chuvas do caju fazem a troca para dias repletos de umidade, de transbordamentos, alagamentos, vida nova nos campos que verdejam no ritmo da passagem dos dias: esses movimentos todos regidos pelo calor, que não desgruda.

Nas imagens de Angel, esses mesmos gestos: paisagens reconfiguradas, reconhecíveis e transformadas pela cor, pelo abrasamento que predomina e que, também em seu ecossistema de imagens e formas, são regidas pela temperatura escaldante do Cerrado: laranja e azuis em harmonia; verdes e roxos complementares; claros e escuros; águas refrescantes em tons de azul; galhos solitários como dias perdidos de chuva entre os de sol; tons de verde que vão do quente ao frio e retornam à calidez, à vida.

O universo cromático de Angel Lima é um ecossistema de fogo. Vários fogos que se cruzam, o das cores, o das formas, o da delicada percepção do Cerrado, o da ousadia de cortar fogo com fogo; imagens-aceiro que fazem crepitar as sensações de ardor, anúncio de breve incêndio.

Ivan Cupertino Dutra – fotógrafo, poeta, professor de francês, mestre em literatura africana de língua portuguesa

Minha relação com o cerrado

Nasci no interior de Goiás, mais precisamente Anápolis-GO. Vivi com meus pais no município de Petrolina de Goiás, até meus sete anos. Nessa cidade, a minha rotina e, de tantas outras crianças, era andar pelas ruas catando sementes nas praças que tinham como principal arborização as favas-de-bolota, os pequizeiros e os “mijo de macaco”. A gente catava sementes, flores e subia muito nessas árvores. (Ah como era bom subir nas árvores... ainda hoje é! Sempre que tenho oportunidade, trepo numa árvore...kkkk).

 

Sempre fui encantada pela força e os mistérios do cerrado; a vegetação rústica, com “ares de poucos amigos”; troncos retorcidos, cascas de árvores robustas, arbustos disformes e a delicadeza dos ipês em flor… uma belezura! Quando nós pensávamos que as árvores morreram — por não terem mais nenhuma folha verde-, vinha a chuva e mostrava que a vida estava apenas esperando o “momento certo” de retomar seu viço.

 

E até aqui falei apenas da vegetação. Mas as águas, ah as águas do cerrado! Estas sempre foram minhas mães acolhedoras; lavando minhas tristezas angústias e me proporcionando diversão mesmo. Nas águas das cachoeiras me sinto integrada, um peixinho, de verdade. Nos acampamentos de pescaria, dos quais meus pais participavam quando eu era criança nunca me cansava de ficar nos rios. Era comum eu ouvir da minha mãe: “Sai da água, Angélica ou vai acabar virando peixe!”...kkkk...como era maravilhoso! Enfim, com o cerrado aprendi que de onde menos se espera vem a exuberância e novas oportunidades de se reviver, reinventar, renascer, resinificar. Aprendi e aprendo também que é possível e preciso acolher-se mesmo em meio às situações mais duras e improváveis que a vida nos traz.

 

Hoje vejo cada árvore ressequida ou, literalmente, queimada, como sobrevivente; verdadeira Phoenix, nos dando testemunho de que a vida é, sim, um rasgar-se e remendar-se constante. Cerrado é vida-morte-vida!

Angel Lima

Numa mangueira em Natividade-TO